
Teorias, versões, fakes e suspense. Os ingredientes que estão a compor os bastidores bolsonaristas nesta reta final para o ato sacramental da candidatura majoritária do PL a Presidência da República.
A convenção nacional do PL (Partido Liberal) para oficializar a candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência da República está prevista para o dia 25 de julho, na cidade de São Paulo.
No entanto, os alicerces da campanha que já estavam abalados desde o áudio que comprovou a proximidade de Flávio com Vorcaro, sofreram mais um abalo sísmico com o vídeo gravado por Michelle Bolsonaro.
O suspense fica ainda mais evidenciado após o ocorrido em Goiânia, ontem, sábado 27. Na saída do evento do PL, o presidente nacional do partido, Valdemar Costa Neto, evitou falar com a imprensa. Ao ser abordado por jornalistas, Valdemar respondeu, em tom descontraído, que foi “proibido pelo Bolsonaro de falar” e seguiu sem conceder entrevista.
Para aprofundar mais um pouco, o mistério é desvendado ao perceber que na gravação do vídeo, Michelle não é espontânea. Um teatro bem montado onde é possível notar pelos olhos, que a mesma está lendo através de um teleprompter. Tudo minuciosamente ensaiado com texto muito redigido e revisado de forma estratégica.

Não esperem que eu julgue. Não tenho poderes para isso. Tento entender, para informar, pois sou jornalista. Ouvi, atento, o pronunciamento de Michelle. Ouvi de novo, e de novo, tentando mergulhar no conteúdo de cada frase. A expressão, o cenário que envolvia a expressão. Percebi firmeza. Confirma o que vejo em Michelle: coerência consigo mesma. Era algo pensado e, pelo momento, com um objetivo. O que ela e Flávio disseram depois só afeta os desavisados.
A essência fora posta à mesa. Pensada, revisada, refeita, conferida e confirmada. Com quem? Com um assessor? Certamente não. Que força e poder teria um assessor, ou assessores, para conferir, pensar junto, revisar, corrigir, confirmar, a não ser o marido, mentor, líder político, Jair Messias Bolsonaro?

A divulgação desse vídeo de Michelle Bolsonaro atacando o enteado Flávio Bolsonaro levantou uma série de questionamentos estratégicos no cenário político brasileiro. O assunto foi abordado pela colunista do Metrópoles, Andreza Matais, na sexta-feira (26).
O timing da revelação — um diálogo ocorrido em dezembro, tornado público minutos antes do jogo do Brasil e em um dia desfavorável para o governo Lula — dificilmente parece fruto do acaso. A direita, conhecida por não dar passos sem calcular o tabuleiro, soube empacotar o episódio com todos os ingredientes de uma narrativa irresistível: drama familiar, traição, bate-boca e o tempero de uma novela nacional. O resultado foi a atenção do país inteiro voltada para o clã Bolsonaro no momento mais assistido da semana.

Por trás do aparente racha familiar, o movimento revela uma operação de sobrevivência política. Ao se distanciar publicamente de Flávio — ameaçado pelo escândalo envolvendo o empresário Daniel Vorcaro —, Michelle Bolsonaro é posicionada como a alternativa limpa da família para a disputa presidencial, enquanto o problema é circunscrito ao enteado. Com Carlos, Eduardo e Jair Renan fora de cogitação, não há outro nome no banco de reservas.
O ex-presidente, que segundo a narrativa teria chorado ao descobrir pela televisão o envolvimento do filho com recursos de Vorcaro, aparece como vítima — e não como cúmplice. A família não necessariamente se reconciliou. Simplesmente ativou o modo sobrevivência.
Fato é que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) “sabia e endossou” o vídeo divulgado pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que expôs um atrito com o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República. A informação foi confirmada com interlocutores diretos do político.
Parlamentares e assessores afirmam que o ex-presidente “não tinha alternativa senão apoiar a divulgação, até pelo bem-estar familiar.”
Valdemar Costa Neto, presidente do Partido Liberal (PL), antecipou o retorno das férias e prometeu se reunir com Michelle Bolsonaro na próxima semana. A intenção é também convidar Flávio para “uma troca franca de ideias”.
O presidente do PL disse a parlamentares que o fato de a desavença ter ficado pública agora, e não às vésperas da eleição, pode ajudar, já que haveria mais tempo para conciliação quando a disputa entrar na reta final.

Porém há um detalhe. Pessoas ligadas à família, disseram não existir a menor chance da desistência de Flávio.
Segundo o jornalista Igor Gadelha, é difícil imaginar um cenário no qual Michelle Bolsonaro (PL-DF) acredite que se credencia como alternativa a Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na disputa ao Palácio do Planalto de 2026, ao divulgar um vídeo explosivo com duras críticas ao enteado.
A hipótese mais plausível é de que o filho “01” de Jair Bolsonaro leve sua candidatura até o fim. Nesse cenário, o impacto da postagem da ex-primeira-dama tenderia a ter consequências positivas apenas para Lula, principal adversário do bolsonarismo.
Por que, então, Michelle gravou o vídeo com antecedência e publicou a gravação nas redes sociais justamente no momento em que o mundo político olharia para a saída de Jaques Wagner (PT-BA) da liderança do governo Lula no Senado?

Michelle talvez já tenha percebido que o bolsonarismo entrou em um ocaso. Trata-se de um processo comum em movimentos populistas cuja liderança é retirada do jogo e, como consequência, deflagra-se uma disputa pelo espólio político dela.
Desde 2018, o bolsonarismo se concentrou na figura de Jair Bolsonaro. E o ex-presidente, com o auxílio de seus filhos, escanteou possíveis lideranças alternativas. Entre elas, Sergio Moro (PL-PR) e Nikolas Ferreira (PL-MG), em diferentes momentos.
Agora, é o próprio Bolsonaro quem está politicamente fragilizado. Nos próximos dias, o ex-mandatário poderá voltar ao regime fechado de prisão. Além disso, convive com problemas de saúde decorrentes da facada sofrida na campanha de 2018.
Nesse cenário, o vídeo de Michelle ganha ares de uma tentativa da ex-primeira-dama de garantir seu quinhão político, afastando-se antecipadamente de Flávio e abrindo espaço para uma possível fragmentação do bolsonarismo em torno de um “michelismo”.
O senador Flávio Bolsonaro esteve com o ex-presidente Jair Bolsonaro na manhã desta sexta-feira para tratar de articulações políticas e da repercussão de um vídeo envolvendo Michelle Bolsonaro.
No material, Michelle fez críticas a Jair Bolsonaro, o que gerou forte repercussão nos bastidores do PL. Segundo Flávio, o pai não tinha conhecimento prévio da gravação e reagiu com surpresa ao conteúdo.
“Ele me disse que não sabia que ela faria um vídeo daqueles e ficou tão chateado que se recusou a assistir, mesmo depois de toda a repercussão negativa do caso”, afirmou o senador.
Flávio também relatou ter mostrado ao pai sua própria posição sobre o episódio e destacou que segue defendendo diálogo interno para fortalecer o grupo político.
Durante a reunião, os dois ainda analisaram cenários eleitorais nos estados e possíveis nomes para o Senado, com base em pesquisas de intenção de voto.
Jair Bolsonaro, segundo aliados, está revisando cada caso antes de tomar decisões finais sobre as candidaturas. A definição, porém, deve passar diretamente por ele, que segue como principal referência nas articulações do grupo político.

Segundo informações divulgadas pela imprensa, Flávio aproveitou uma brecha na agenda para conversar pessoalmente com o pai e buscar orientação sobre como conduzir a situação. O acesso foi permitido porque o senador integra a equipe de advogados autorizados a visitar o ex-presidente.
De acordo com a apuração, a pré-campanha de Flávio teria sido surpreendida pela divulgação do vídeo, sem aviso prévio. Michelle afirmou que se sentiu desrespeitada durante uma conversa telefônica sobre alianças políticas no Ceará e relatou que ouviu frases como que ela “não entendia de política” e deveria ficar fora das decisões partidárias.
Curiosamente, crises internas em grandes partidos costumam ser tratadas de forma reservada para evitar desgaste público e preservar a unidade do grupo durante períodos pré-eleitorais. Até o momento, não há informação oficial sobre eventual manifestação pública de Jair Bolsonaro a respeito do episódio.
DIRETO DA REDAÇÃO


