Secretário de Estado americano citou o país em audiência no Congresso, sem detalhar critérios para a classificação
Em meio a um momento delicado nas relações entre Brasília e Washington, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, incluiu o Brasil em uma lista de países considerados problemáticos para a diplomacia norte-americana. A declaração foi feita durante audiência no Congresso dos EUA nesta terça-feira (2).

Brasil na mesma lista de ditaduras

Ao traçar um panorama da geopolítica no hemisfério ocidental, Rubio destacou que os Estados Unidos contam hoje com mais de uma dúzia de nações aliadas na região. O Brasil, porém, ficou de fora desse grupo — citado na mesma frase que Cuba, Nicarágua e Venezuela, países governados por regimes autoritários.

“Nós agora temos, neste hemisfério, uma coalizão de países amigáveis de mais de uma dúzia. É uma história incrível, exceto por Nicarágua, por Cuba, por Venezuela, que ainda têm alguns desafios, e, claro, o Brasil, embora eles estejam no meio de um ciclo eleitoral. Em geral, é agora uma região repleta de aliados americanos.”

Na visão do secretário, o ciclo eleitoral brasileiro seria um elemento que afeta o estado atual da relação bilateral. Rubio também fez críticas à Colômbia, classificando o governo do presidente Gustavo Petro como “problemático”.

Ausência de critérios objetivos

Apesar de incluir o Brasil entre os países desafiadores, Rubio não apresentou justificativas específicas para essa classificação. O secretário tampouco revelou quais nações compõem a coalizão de governos que considera aliados dos Estados Unidos na região.

Tensões crescentes entre Brasil e EUA

A declaração não surge isolada. Nas últimas semanas, uma série de atritos tem marcado o relacionamento entre os dois países. Rubio anunciou recentemente que os Estados Unidos pretendem designar o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas estrangeiras — medida que gerou forte reação do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Outro foco de tensão envolve a política comercial. Na segunda-feira (1º), o governo do presidente Donald Trump propôs tarifas de 25% sobre um extenso conjunto de produtos importados do Brasil, ampliando o mal-estar diplomático entre as duas maiores economias das Américas.

Além dos 25% anteriores, EUA propõem nova tarifa de 12,5% sobre produtos brasileiros e citam novo motivo

O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) propôs, nesta quarta-feira (3), uma nova sobretaxa de 12,5% sobre todos os produtos brasileiros. A justificativa é a suposta falha do Brasil em combater o trabalho forçado em sua cadeia produtiva. O país integra uma lista de 60 nações que, segundo Washington, não conseguiram proibir práticas consideradas “inaceitáveis” na produção de bens exportados

A dupla ameaça ao Brasil

A recomendação partiu do mesmo órgão que, na véspera (2), propôs uma tarifa adicional de 25% sobre mercadorias brasileiras por práticas comerciais desleais — que incluem desde barreiras ao comércio digital até o desmatamento ilegal. Ainda não está claro se a taxa de 12,5% sugerida hoje será aplicada em adição à de 25%, o que resultaria em uma sobretaxa total de 37,5% sobre os produtos brasileiros.

A declaração do USTR
O embaixador Jamieson Greer, representante comercial dos EUA, justificou a medida em comunicado:

“A falha dos nossos parceiros comerciais mais importantes em abordar a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado é inaceitável. Isso cria uma dinâmica em que os trabalhadores americanos são forçados a competir globalmente em condições desiguais.”

“Não toleraremos mais essa disparidade. Alguns parceiros comerciais já tomaram medidas iniciais. No entanto, cada um dos nossos parceiros comerciais deve fazer mais para garantir que o comércio não incentive e perpetue o trabalho forçado em nível global.”

Países aliados pagam menos

O USTR indicou um alívio para um grupo de países aliados que, supostamente, já adotaram medidas para coibir as práticas desleais em fábricas. Mesmo incluídos na lista de trabalho forçado, essas nações pagarão sobretaxa de 10%. Entre eles estão Canadá, Equador, União Europeia, Indonésia, México e Paquistão.

O Brasil, porém, não faz parte desse grupo. Por isso, estará sujeito à alíquota extra de 12,5%, assim como China, Índia, Reino Unido e outras 50 nações.

Lista de 60 países afetados (parcial)
A lista completa divulgada pelo USTR inclui países como Argentina, Austrália, Chile, Colômbia, Japão, Rússia, Coreia do Sul, Suíça, Turquia, Venezuela e Vietnã, entre outros (ver lista no final da matéria).

Próximos passos

A recomendação do órgão ainda não é automática. O tarifaço passará por consulta pública no dia 6 de julho e por uma audiência no Escritório de Comércio americano no dia 7 de julho. Após essas etapas, a decisão final caberá ao presidente Donald Trump. O governo brasileiro terá prazo para apresentar defesa e negociar a exclusão da medida.

Lista completa das 60 nações

Argélia, Angola, Argentina, Austrália, Bahamas, Bahrein, Bangladesh, Brasil, Camboja, Canadá, Chile, China, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, Egito, El Salvador, União Europeia, Guatemala, Guiana, Honduras, Hong Kong, Índia, Indonésia, Iraque, Israel, Japão, Jordânia, Cazaquistão, Kuwait, Líbia, Malásia, México, Marrocos, Nova Zelândia, Nicarágua, Nigéria, Noruega, Omã, Paquistão, Peru, Filipinas, Qatar, Rússia, Arábia Saudita, Singapura, África do Sul, Coreia do Sul, Sri Lanka, Suíça, Taiwan, Tailândia, Trinidad e Tobago, Turquia, Emirados Árabes Unidos, Reino Unido, Uruguai, Venezuela, Vietnã.

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