
A região está em luto. Pelo menos a grande legião de amigos que Luiz Cláudio Cordeiro acumulou ao longo de décadas, desde o bairro do Garcia, na cidade de Lins, até Araçatuba, Bauru e tantas outras até chegar a Campo Grande, no Mato Grosso do Sul.
O adolescente que em meados dos anos 70 carregava consigo o visual da rebeldia tinha como rotina sair de sua casa na confluência das ruas Olavo Bilac com Rangel Pestana para se encontrar com os amigos em um velho galpão próximo a sua casa para ouvir o bom e insuperável Rock’N’Roll e tocar os primeiros acordes.
Quando não, se maquiava com os amigos, replicando a banda do momento para se apresentar em modus gala na saída da escola E.E.P.G 21 de Abril. Não havia redes sociais nesta época, mas Pitico como era carinhosamente chamado, já emplacava seu grito cuspindo fogo como Gene Simmons do Kiss.
É impossível falar dessa lenda que nos deixou, sem mencionar a banda que encerrou suas atividades no ano passado e tentar descrever a contribuição do mesmo para o contexto musical de boa parte do estado de São Paulo. O cara conseguiu mudar e enriquecer o contexto musical de diversas cidades. Então vamos à história;

Bendito seja os anos 70. O rock começou a se transformar nessa época com a criação de estilos bastante distintos e marcantes. As bandas deixaram de ser ecléticas e testar diferentes sonoridades, como era na década anterior, com o objetivo de tornarem-se especialistas em apenas uma direção musical em seus repertórios.
Os anos 70 foram marcados pelo ápice do rock como estilo de música popular internacional, que gradualmente foi dominando a indústria musical e o gosto do público, principalmente os jovens.
Nesta ocasião, o fim dos Beatles foi emblemático do fim de mais uma era no rock. Haviam sido talvez a banda que mais ajudara na transição entre o rock básico de letras simples dos primeiros tempos ao rock mais complexo e sério musicalmente e liricamente. Não mais apenas diversão e produto de consumo, o rock era definitivamente encarado como expressão artística e social.
O público de rock se dividia em duas frentes, a dos adolescentes mais interessados nos hits, singles de bandas teoricamente “descartáveis” e a dos já amadurecidos rockers dos primeiros tempos, em busca de experimentação, letras elaboradas, álbuns completos.
O rock progressivo começava a se apresentar ao grande público e Greg Lake, após abandonar a banda King Crimson, formava a clássica banda Emerson, Lake & Palmer (acompanhado de Keith Emerson e Carl Palmer), cativando um público cada vez mais sério. O álbum Deja Vu de Crosby, Stills, Nash & Young, é o mais vendido do ano nos Estados Unidos. Com a aquisição do baterista Phil Collins, a banda Gênesis iniciava sua careira de sucesso.
Embora o rock progressivo continuasse em expansão, bandas de musicalidade mais simples e muito baseadas no apelo fácil da rebeldia voltavam a surgir para suprir a nova geração, principalmente nos Estados Unidos, como Slade, Sweet, Gary Glitter, T Rex, ou conseguiam um sucesso tardio, como David Bowie, Bay City Rollers e Elton John. A imagem (maquiagem, cabelos, roupas exageradas e coloridas) de músicos como Marc Bolan, do T-Rex, iniciavam a definição do estilo Glam Rock (que aproveitavam a imagem esdrúxula e em muitos casos andrógina como fator de marketing).
Na Inglaterra, em 1970, sem requintes musicais, o Black Sabbath gravava seu primeiro disco (conta a lenda que em apenas dois dias), auto intitulado, expandindo as fronteiras do “peso” no hard rock e criando o que possivelmente poderia ser o primeiro disco definitivamente heavy metal conhecido do grande público. O limite dos escândalos envolvendo sexo, drogas e “satanismo” também é empurrado para diante.
Munido de maquiagem e teatralidade inéditos até então, Alice Cooper seria a resposta americana ao inédito peso e atitude do Black Sabbath. Surge para o público em 1971 com o hit Eighteen e o álbum Love It To Death.
A cristalização do uso da imagem, do teatro e da “atitude” como fator de marketing tão ou mais importante do que a própria música seria a banda americana Kiss (que lançou seu álbum de estréia, auto-entitulado, em 1974) cujos músicos tocavam maquiados, assumiam personalidades de demônio, animal, homem espacial e deus, voavam, cuspiam fogo, vomitavam sangue e vendiam discos, maquiagem e bonecos como nenhuma banda de simples músicos poderia vender.
SE FEZ NECESSÁRIO ESSA INTRODUÇÃO PORQUE, QUALQUER ROQUEIRO DAQUELA ÉPOCA, RESIDENTE NO CENTRO OESTE OU NO NOROESTE DO ESTADO, COMEÇOU A GOSTAR DE ROCK ATRAVÉS DE PITICO, QUE DEVIDO À SEMELHANÇA COM PAUL STANLEY, ACABOU SENDO APELIDADO POR TODOS COMO STANLEY, O SÓSIA PERFEITO.
Formou discípulos que se encarregaram de fazer a multiplicação da mensagem. Lins, por exemplo, respirou o seu auge nestes anos com Marco A. Nassif, saudoso José Carlos Siviero, Spin, Hugo, Edson Marçal (Pelé), Maurício Paulozzi, Luís Carlos Ronconi, Maurílio Alves dos Santos e tantos outros.

Louis Stanley, tocou com diversas bandas, no bosque municipal, CSU, antigo Círculo Operário e outros locais na cidade de Lins e acabou difundindo o estilo musical para uma verdadeira legião de roqueiros. Veio então a segunda safra;

Em 1977, o primeiro disco dos Sex Pistols, Nevermind The Bollocks entraria direto no primeiro lugar da parada britânica. Aos Sex Pistols se seguiriam dezenas de bandas inglesas e americanas como Clash, Damned, Siouxie and The Banshees, além de serem resgatadas e tiradas do anonimato bandas como Ramones e Blondie.
O estilo também influiria embora indiretamente na sonoridade de novas bandas que surgiam, como Motörhead e AC/DC. O punk também absorveria elementos de outros estilos (como o reggae, por exemplo, de temática e musicalidade semelhantes em sua simplicidade). Bandas como The Police, Simple Minds e Pretenders (e um pouco mais tarde U2) adotariam um estilo que viria a ser conhecido como new wave, mais facilmente aceitável que o punk (cuja fórmula inicial já não surtia tanto efeito comercialmente).
Mas o punk e a new wave não eram a única alternativa à onda “disco” que assolava a música. Começava a se formar na Inglaterra com bandas como Judas Priest, Samsom e principalmente Iron Maiden, o que viria a ser conhecido como New Wave Of British Heavy Metal, a resposta do som pesado e elaborado à sonoridade simples do punk. O hard rock também dava sinais de renovação com o primeiro álbum auto-entitulado da banda Van Halen em 1978.

A partir daqui, o KISS de Louis Stanley já não era unanimidade, pois a safra tinha muitas e boas opções. Foi daqui que chegaram; Venâncio (Kaito Jr), Jorge, João Pinguinha, saudoso Zé Ribeiro, saudoso Wilson Page, João Izar, saudoso Luis Porquinho, Luiz Eduardo, Milton Lins, Marcelo Bibol, Durval, Marcelo Paulozzi, saudoso José Santana, saudoso Duda, Paulo Satani e as meninas, Fanley Weston Killer, Marina, Ana, Célia, Chris, Ivonete, Ester e outros que não me recordo.

Em Bauru, um novo legado ao lado de Paulo Pepe, Mariveti Rock’n’Roll e mais uns 40 que se reuniam algumas vezes na Vila Falcão para saborear uma bebida conhecida como Black Sabbath, (pinga com groselha). A cidade tremia, quando a Gang do bem descia pela Batista de Carvalho. Não se assustem, era apenas o visual, jovens do bem no grito que ecoou durante décadas.

Seu legado ao longo de 50 anos ecoou em um raio de centenas de quilômetros, chegando a Araçatuba e região como pacifista, ativista e um dos maiores nomes do rock no interior paulista. Não fez o sucesso que merecia, mas cultivou e manteve acesa a chama do ROCK por onde passou.

Pitico, ou Stanley como queiram, ultimamente morava em Campo Grande com a esposa Maria Gorete, um casal de filhos e dois netos. Se converteu ao evangelho há muitos anos e abraçou a nova causa, agora, de ganhar almas para Jesus.
Nunca abandonou a sua profissão de músico. Se tornou um pai amoroso, bom marido, bom sogro e bom avô. Seu maior passatempo, passar o seu legado para o seu neto;

No último sábado, Luiz Cláudio Cordeiro sofreu um AVC hemorrágico e lutou bravamente até o dia de ontem. Foi um guerreiro, foi um roqueiro, foi um amigo…

O NOSSO JORNAL, envia aqui a sua esposa Maria Goretti, filhos, netos, demais parentes, amigos e companheiros de estrada, nossos mais sinceros sentimentos. Chegou a hora; o grande mestre, o maior percursor do Rock da região, também combateu o bom combate, guardou a fé e empunhou o seu contra baixo até o último respiro. QUE DEUS LHE DÊ O CONFORTO E GLÓRIA DA SEGUNDA CASA.
DIRETO DA REDAÇÃO COM A COLABORAÇÃO DE MARCOS A. NASSIF


